Ousadia, coragem e disposição ao diálogo, e com participação de diversos protagonistas, deram o clima à audiência pública “Cannabis Medicinal, Por que regulamentar?”, proposta pelo deputado Goura, que aconteceu, nesta quarta-feira (29), no Plenarinho da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), que pela primeira vez tratou formalmente do tema.

“Só com diálogo, com participação, vamos vencer os tabus e os preconceitos sobre o uso medicinal da cannabis, a maconha, e garantir aos pacientes, que precisam do medicamento, o direito ao acesso facilitado, sem burocracias”, disse Goura, ao explicar que a audiência também servirá para subsidiar a proposta de projeto de lei a ser apresentada na Alep.

Beneficiar as pessoas

“Para beneficiar as pessoas e reduzir o sofrimento de pacientes e familiares precisamos agir. Este debate tem este propósito e todos aqui colaboram para que isto aconteça”, disse Goura, que, ao final da audiência, explicou quais seriam os encaminhamentos propostos.

“Vamos fazer uma moção de apoio à desburocratização e a facilitação do acesso aos medicamentos derivados da cannabis. Aprofundar o debate para a formulação do projeto de lei sobre a cannabis na Alep e apoiar as associações que promovem os direitos dos pacientes de cannabis medicinal”, afirmou Goura.

Ele também explicou que será organizada uma reunião para a criação de uma frente de médicos que apoiam e prescrevem o uso da cannabis medicinal. “Os direitos dos pacientes de ter acesso aos medicamentos da cannabis medicinal deve ser esclarecido e vamos trabalhar para a criação de políticas públicas na área”.

Confira as fotos da audiência clicando na imagem abaixo:

Audiência Cannabis Medicinal

Deputados

Os deputados Delegado Recalcatti, Dr. Batista, Requião Filho, Evandro Araújo e Arilson Chiorato destacaram a importância e a relevância de se debater o tema da maconha medicinal. “Quero parabenizar pela ousadia em tratar temas como este, além de ter coragem também”, disse Recalcatti. “Precisamos, portanto, ampliar o debate e perder o medo de falar no assunto”, disse Requião Filho.

Evandro Araújo justificou sua participação “pela necessidade de conhecer e se aprofundar sobre o tema” e que já tinha sido consultado sobre como se ter acesso aos medicamentos da cannabis medicinal. Ele explicou que é membro da Comissão de Saúde Pública da Alep e por isso seu interesse sobre o tema.

“Na semana passada fomos procurados e nos pediram informações sobre a cannabis medicinal. Não é que para minha surpresa aparece o Goura com uma cartilha sobre o assunto. Por isso, essa audiência é tão relevante. Precisamos quebrar paradigmas e avançar com ações estruturantes para beneficiar as pessoas que precisam desses remédios”, comentou Araújo.

Também participaram da audiência César Neves, representando o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Gebrim Preto e a vereadora Maria Letícia Fagundes (PV).

Por uma boa regulamentação

Para a médica funcional e diretora científica da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME), Paula Dall Stella, que falou sobre “Cannabis Medicinal: Droga ou remédio?”, a falta de regulamentação da cannabis medicinal cria muitas dificuldades ao tratamento e quem mais sofre são os pacientes, principalmente as crianças.

“As pesquisas científicas mostram resultados fantásticos muito além das expectativas no uso das propriedades medicinais da cannabis. A falta de regulamentação e a desinformação não podem ser um impedimento ao direito de acesso a estes medicamentos pelos pacientes”, criticou Dall Stella.

Segundo ela, a cannabis está sendo indicada mais comumente para o tratamento de doenças como câncer, depressão, dependência química, mal de Parkinson e Alzheimer, síndrome de Dravet, autismo, dores crônicas, enxaqueca, insônia, epilepsia e autismo. “Precisamos ter um bom regulamento para que os pacientes tenham acesso a tratamentos contínuos com medicamentos de qualidade”.

Confira clicando na foto a apresentação da médica Paula Dall Stella, que também é membro da Sociedade Internacional de Pesquisa com Canabinoides – ICRS e da Associação Internacional de Cannabis como Medicina – IACM:

Depoimentos emocionados

Ninguém que escuta os depoimentos das mães que falaram na audiência pública fica indiferente ao drama vivido por elas e seus filhos no dia a dia de doenças que são muito difíceis de diagnosticar e tratar.

Maria Aline, que é mãe do Victor, que tem epilepsia e autismo contou que antes do uso do canabidiol a sua vida era estressante e permeada de muito sofrimento por não conseguir que os tratamentos ajudassem o seu filho a ter uma qualidade de vida melhor.

“Não era vida. Até que o tratamento com canabidiol mudou tudo. Já com nove dias de uso o Victor teve uma melhora incrível. Depois, com o uso regular ele evoluiu muito, ao ponto de não usarmos mais medicações convencionais. Antes eu e ele, a família toda, não tínhamos vida social. Hoje, todos nós temos”, declarou.

Veja abaixo a apresentação da Maria Aline:

Outro depoimento que emocionou os presentes foi o da Andrea Silvério Martino, a mãe da Isadora, que além de contar os dramas vividos pela doença da filha falou da importância de se fortalecer e apoiar a atuação das associações que auxiliam pais e pacientes a ter acesso aos medicamentos derivados da cannabis.

“Minha filha tinha crises convulsivas constantes e os diagnósticos sempre foram muito dramáticos, com expectativas de vida muito pequenas para ela, que tomava sete anticonvulsivos e mesmo assim não tinha melhoras. Com apenas seis meses de uso do canabidiol a Isadora não teve mais crises. Hoje ela tem 19 anos e teve uma evolução incrível, passando a se movimenta e até falar, ao modo dela”, contou Andrea, que se emocionou muitas vezes ao falar aos presentes.

Confira um dos filmes mostrado na apresentação da Andrea Martino:

A cannabis e seus derivados

O químico Fabiano Soares falou sobre a “Cannabis medicinal: muito além do canabidiol” e explicou que são inúmeras as substâncias extraídas da maconha e que podem ter uso medicinal. “São dez mil anos de relatos sobre as incríveis propriedades medicinais desta planta, que não à toa leva no nome científico sativa, que significa semeado ou plantado pelo homem”.

Ele explicou que no mínimo 80 substâncias são derivadas da cannabis e que existem cerca de 800 variedades de sementes da cannabis. “Cada planta tem suas características específicas e delas se extraem as substâncias que são as mais indicadas a cada tipo de tratamento de certas doenças”, disse. Soares apresentou um estudo da Fundación CANNA, da Espanha, sobre a cannabis, seus derivados e as doenças que podem ser tratadas.

Confira, clicando na imagem abaixo, a apresentação do Fabiano Soares:

Uma experiência empresarial

O CEO da Green Med, que tem sede nos EUA e fornece canabidiol importado para pacientes no Brasil, André Brofman, contou a história da empresa e explicou como é feito todo o processo de produção e distribuição dos produtos de óleo de canabidiol.

“Por conta da proibição da maconha no Brasil resolvemos nos instalar na Califórnia. Nosso objetivo é fornecer um produto de qualidade para atender os pacientes que precisam dos produtos no Brasil”, disse. Ele agradeceu a oportunidade de apresentar o ponto de vista de um empresário na audiência. “Nosso lema é viver bem é um direito e por isso atuamos pela regulamentação da cannabis medicinal no Brasil”.

Clique na imagem abaixo e confira a apresentação do André Brofman:

Os exemplos no mundo

Para o advogado Diogo Busse, que falou sobre “A regulação da cannabis medicinal no Brasil e no mundo”, o uso terapêutico da cannabis medicinal enfrenta um cenário adverso no país. “A burocracia, a visão retrógrada e o preconceito ainda são responsáveis por não podermos ter todos os benefícios que os medicamentos derivados da maconha têm no tratamento de diversas doenças. Isso precisa mudar com urgência”, declarou.

Confira a apresentação do Diogo Busse clicando na imagem abaixo:

André Feiges, também advogado, falou sobre “Justiça criminal e maconha medicinal” e alertou que a atual situação da cannabis medicinal precisa ser regulamentada. “A Anvisa fez uma exceção ao permitir a importação dos medicamentos da maconha. Mas ainda temos que avançar muito para regulamentar devidamente o acesso e o uso destes medicamentos”, afirmou.

Descriminalização de todas as drogas

O especialista em segurança pública Marcelo Jugend abordou a cannabis no contexto da guerra às drogas e os índices de violência urbana. “A situação que temos em relação à maconha no Brasil é pura hipocrisia. A proibição das drogas gera o tráfico e o tráfico gera mais violência”, disse. “Só com a descriminalização de todas as drogas, de todas mesmo, teremos uma diminuição real da violência”, declarou.

“Estou aqui para falar em resistência. Não só dos grupos sociais que usam a maconha, mas também desta planta que tem inúmeros atributos, que enfrenta preconceitos e perseguições, e mesmo assim tem resistido e está aí, na vida cotidiana”, disse Mauro Leno, que representou a Marcha da Maconha Curitiba e falou sobre “O movimento pró-cannabis no Brasil: histórico e perspectivas.”

Assista abaixo os vídeos da audiência na íntegra:

 

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