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Cantos e danças tradicionais em homenagem aos seus ancestrais apresentados pela Juventude Indígena Kaingang Nēn Ga da Terra Indígena Apucaraninha (PR) fizeram a abertura, nesta terça-feira (6), da “1ª Semana Ângelo Kretã” organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul), Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e pela Grande Assembleia do povo Guarani (Aty Guasu). O evento faz parte da programação do “Abril Indígena – 17º Acampamento Terra Livre (ATL 2021)”, que é promovido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

 

Ângelo Kretã (1942 – 1980), morto há 41 anos, é considerado um dos maiores símbolos da luta indigenista no Brasil e foi o primeiro vereador indígena eleito do país, em 1976, em plena ditadura, pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Kretã vivia na Aldeia Mangueirinha, no Sudoeste do Paraná e foi morto em uma emboscada, que até hoje não teve esclarecida a responsabilidade da autoria.

 

1ª Semana Ângelo Kretã

 

“Este é um momento muito importante para a questão e para a luta dos povos indígenas do Paraná. Esta primeira Semana Ângelo Kretã é uma oportunidade que temos de debater, conversar e de ensinar e aprender sobre a nossa ancestralidade e sobre a memória dos nossos guerreiros. Guerreiros como Ângelo Kretã, que deu sua vida e sangue na luta pelos direitos dos povos indígenas”, disse Eloy Jacintho, liderança da Arpinsul, que fez a abertura e mediou a Semana Ângelo Kretã. “Este evento é um evento de luta, mas também de memória.”

 

Confira abaixo a íntegra do evento de abertura da “Semana Ângelo Kretã”:

 

 

Semana é lei aprovada na Alep

 

A Semana Ângelo Kretã de luta pelos direitos dos povos indígenas foi instituída pela Lei 20.359 de 27 de outubro de 2020 a partir de projeto de lei do deputado estadual Goura (PDT) aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Assim, a primeira semana do mês de abril será destinada a homenagear a memória de Ângelo Kretã, uma das mais importantes lideranças indígenas do país, que dedicou sua vida à luta pelos direitos dos povos indígenas. Clique aqui para ler a íntegra da Lei Ângelo Kretã.

 

O deputado Goura disse que o objetivo ao propor a lei foi o de dar visibilidade à história, à memória, à cultura e às lutas dos povos indígenas do Paraná. “Primeiro, o meu respeito a todos os povos indígenas e àqueles que deram a vida pela luta pelos seus direitos”, disse. “Com esta primeira Semana Ângelo Kretã, cumprimos o que a lei se propõe. Vamos mostrar a história, cultura e luta dos povos indígenas do Paraná, com toda a sua força e potência.”

 

Responsabilidade histórica

 

Goura disse que o Estado do Paraná precisa assumir sua responsabilidade histórica e reparar as injustiças cometidas contra os povos originários que habitavam o estado muito antes dos europeus, e depois os brasileiros, ocuparem suas terras. “Paraná é nome indígena. São mais de 130 municípios com nomes de origem Guarani, Kaingang, Xokleng, Xetá e outros. São mais de 30 mil indígenas no Paraná que estão desassistidos pelos governos”, alertou.

 

“Não adianta fazer estátua do Cacique Tindiquera e colocar na praça e fazer festa de inauguração. Cadê a Casa de Passagem Indígena? Em quais condições são acolhidos os indígenas que precisam vir a Curitiba? Por isso, precisamos de políticas públicas para restaurar a dívida que temos com esses povos, com o não reconhecimento dos seus direitos e sua cultura”, declarou Goura.

 

Participação na política

 

O deputado lembrou que a história de Ângelo Kretã é um exemplo e uma motivação para as lideranças indígenas que estão lutando por seus direitos. “A sua voz foi silenciada pelos juruás. Da luta do Kretã surgiu uma semente forte que se multiplicou. E é preciso que se multiplique ainda mais. Por isso, a importância da atuação política e de se ocupar os espaços para que cada vez mais os indígenas tenham sua visibilidade reconhecida pela sociedade”, disse. “Em 2022, vamos tirar este presidente genocida e vamos eleger uma bancada indígena, com deputado estadual e deputado federal.”

Leia a Declaração do Abril Indígena – Acampamento Terra Livre 2021, clicando na imagem abaixo:

 

O momento é difícil, mas a luta continua

 

Para o cacique Terra Indígena Tupã Nhe’e Kretã e da coordenação executiva da Apib/Sul, Kretã Kaingang, filho de Ângelo Kretã, a semana é importante porque fortalece a organização dos indígenas do Paraná. “É fundamental para trocar experiências e para nos organizarmos neste momento difícil de ataques desse governo que desde a campanha disse que não demarcaria terras indígenas e nem reconheceria nossos direitos. Mas a nossa luta continua”, disse Kretã.

 

Ele destacou a importância do Abril Indígena e do 17º Acampamento Terra Livre (ATL 2021). “O ATL acontece pela segunda vez de forma virtual e mostra como estamos na vanguarda dos movimentos sociais. Estamos ocupando as redes. É difícil porque o acesso à tecnologia é limitado, não é para todos. Mas estamos avançando desde o primeiro ATL, em 2004, e não vamos deixar de lutar. Mesmo agora, com covid e este governo genocida”, afirmou Kretã.

 

Indígenas em risco no Paraná

 

O cacique contou que está na Região do Paraná e que visitou 15 áreas indígenas que, segundo ele, estão em situação muito precária e com os indígenas em risco. “Não há saneamento básico, habitação e escola. E o mais grave, falta alimento para todos”, denunciou. “Os governos, federal e estadual, têm que assumir suas responsabilidades. Com a covid-19 a situação se agravou muito”, disse Kretã. Ele também denunciou que os indígenas dessas áreas na Região Oeste também são vítimas de violência, de preconceito e de discriminação.

 

Mulheres indígenas

 

O lançamento da Semana Ângelo Kretã também contou com a participação da liderança indígena Chirley Pankará, codeputada estadual pelo mandato coletivo da Bancada Ativista do Psol/SP. Ela falou da importância das mulheres indígenas na luta dos povos por seus direitos. “Minha eterna gratidão pelas mulheres guerreiras que dão alma à luta indígena em todo o país e no mundo”, disse ela. “Quero pedir que todos compartilhem e divulguem a programação do Acampamento Terra Livre e da Semana Ângelo Kretã.”

 

Nyg Kaingang, da Juventude Indígena Kaingang Nēn Ga, que se apresentou na abertura da semana, disse que é preciso fortalecer a participação das mulheres indígenas no movimento. “Fortalecer e resistir. É assim que vamos lutar e reconstruir a nossa cultura e resgatar a nossa espiritualidade. E é essa a força da mulher indígena”, afirmou Nyg.

 

Programação do ATL 2021

 

O Acampamento Terra Livre (ATL) é maior mobilização indígena do Brasil e reúne lideranças de todas as regiões do país em uma jornada que integra o Abril Indígena. A programação completa está no site apiboficial.org e é transmitida na página do Facebook da Apib.

 

 

Conheça a história de Ângelo Kretã

O nome Kretã é traduzido por Francisco Luís dos Santos (importante liderança Kaingang da Terra Indígena Mangueirinha) como “aquele que olha por cima da montanha enxerga mais alto”, segundo consta na Dissertação de Mestrado em Antropologia social apresentada ao programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Paraná por Patrick Leandro Baptista, em 2015.

Uma reportagem publicada pelo portal do Instituto Humanitas Unisinos – IHU , em setembro de 2017, conta um pouco da história de Ângelo Kretã, confira um trecho:

“Considerado a maior liderança indígena do Sul do país nos primórdios do movimento, o Cacique Kretã vivia na Aldeia Mangueirinha, no Sudoeste do Paraná. Por sua liderança incontestável foi eleito em 1976, em plena ditadura, o primeiro vereador indígena pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o que lhe garantiu projeção nacional.

Ao defender como parlamentar o que é de direito aos povos originários do Brasil, especialmente a demarcação de terras, Ângelo Kretã era uma voz que dava eco a todas as demandas indígenas com carisma e determinação.

Sua morte prematura em 1980 num ‘acidente de carro’ numa estrada dentro da aldeia, causou grande comoção nacional. Diante da convicção das lideranças indígenas da época – e até hoje – que não ele foi vítima de uma emboscada, sua memória persiste e inspira novas lideranças na luta pelos direitos dos povos indígenas.

Assassinado durante a Ditadura

O portal Índio É Nós, relembra em artigo, que: “Seu assassinato foi uma das graves violações de direitos humanos relatadas pela Comissão Nacional da Verdade em 2014: Ameaças e assassinatos de lideranças indígenas e indigenistas foram comuns nesse período, como o assassinato do líder kaingang Ângelo Kretã, morto em 1980, e do Guarani Marçal de Souza, fundador da União das Nações Indígenas assassinado em 1983. Ambos eram lideranças indígenas com projeção nacional e internacional no período e denunciaram com grande veemência o esbulho de suas terras no Paraná e no Mato Grosso. (CNV, Relatório, vol. II, p. 244).

Saiba mais sobre Ângelo Kretã

Em 1980, um Globo Repórter Especial foi produzido para retratar a comoção que foi a morte de Ângelo Kretã, assista ao vídeo:

Em 1983, o cineasta Sérgio Bianchi realizou o documentário Mato Eles?, ganhador do prêmio de melhor direção no Festival de Gramado e do Grande Prêmio do Festival de Cinema da Cidade do México, em 1985, que denúncia da situação dos índios Xavante, Guaranis e Xetás, espremidos no meio de uma briga litigiosa entre o Grupo Slaviero, a Funai e o Governo do Estado do Paraná.

Assista ao documentário abaixo:

 

Confira a cartilha Paraná Indígena produzida pelo Mandato Goura: