Ao reunir pacientes, profissionais da saúde, políticos, advogados, representantes de associações, empresários, ativistas e especialistas do Brasil e do exterior para discutir, por dois dias, um tema que já avança a passos largos no mundo todo: a maconha ou cannabis medicinal, o Paraná assume a vanguarda nesta discussão no país e joga luz em um tema que continua cercado pelo obscurantismo.

 

“É hora de virar a página do preconceito e da ignorância e avançar nesse caminho, que é sem volta. A cannabis no mundo inteiro está sendo pesquisada e é objeto de atenção por vários países e o Brasil e o Paraná não podem ficar de fora”, afirmou o deputado estadual Goura (PDT), idealizador do Fórum Paranaense da Cannabis Medicinal, que foi realizado nos dias 1° e 2 de julho.

 

Goura ressaltou que o movimento em defesa da descriminalização da cannabis medicinal ganhou corpo e tem papel fundamental à medida que cobra dos políticos a implementação de políticas públicas e ações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

 

“É preciso lembrar que já existe a possibilidade, no Brasil, de comprar o medicamento à base da cannabis na farmácia com a devida prescrição médica, porém, o custo é muito alto”, explicou.

 

Referência para o Brasil

 

Em todas as mesas de discussão os participantes destacaram a importância da realização do Fórum Paranaense da Cannabis Medicinal e elogiaram a profundidade e responsabilidade com que o tema foi tratado.

 

“Eventos como esse deveriam ser realizados em todos os estados brasileiros. A gente precisa de mais iniciativas públicas falando de cannabis”, afirmou a antropóloga, educadora canábica e fundadora da InFlore, Luna Vargas.

 

Exemplo ao vivo da importância da cannabis

 

A sexta e última mesa do evento teve como tema “A urgência da regulamentação”. E logo durante a primeira fala, os participantes puderam ver, ao vivo, o desespero da mãe e ativista da cannabis medicinal, Cidinha Carvalho, que teve que interromper sua participação para socorrer a filha que convulsionou naquele momento.

 

Foram minutos de aflição que trouxeram a dimensão da importância da medicação para milhares de pacientes e familiares que passam por essa situação diariamente.

 

Minutos depois, já mais calma e aliviada, Cidinha contou que sua filha já estava dormindo e se recuperando da crise. Porém, nem sempre foi assim.

 

“Se fosse há uns anos atrás, nesse momento nós estávamos correndo para o hospital. Porque a Sídrome de Dravet é tão grave que ela tinha paradas cardiorrespiratórias convulsionando. Com o uso da cannabis, eu consigo tratar minha filha em casa. A gente luta pela cura, mas enquanto a cura não vem, a gente luta pelo alívio. E hoje o único alívio para a minha filha e para tantas outras pessoas, é a cannabis”, testemunhou ainda emocionada.

 

Garantir o acesso à medicação

 

Foi unânime a avaliação de que o acesso a cannabis é um direito humano e que a luta é para garantir a acessibilidade da cannabis à população de baixa renda, que necessita da medicação e não tem condições de usar devido ao alto custo.

 

“Os lá de cima já sabem que maconha é remédio”, afirmou Cidinha Carvalho. Na mesma linha, Pérola Sanfelice, também mãe e ativista, afirmou que no Brasil esse é um “medicamento extremamente elitizado” devido aos preços muito altos.

 

Veja a íntegra da mesa de encerramento no link abaixo:

 

 

Primeira opção

 

Outra crítica feita pelas mães de pacientes foi em relação ao não reconhecimento do tratamento pelo Conselho Federal de Medicina. “A Cannabis precisa ser tratada como uma das primeiras opções e não como última”, ressaltaram.

 

Ambas relataram que a utilização da cannabis, além de diminuir drasticamente a ocorrência das crises convulsivas, diminuem o tempo de duração da cada crise, evitando a falta de oxigenação no cérebro que provoca lesões, algumas vezes irreversíveis.

 

Falta de conhecimento acadêmico

 

A médica generalista Amanda Medeiros Dias, membra da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis (SBEC), falou sobre a falta de conhecimento acadêmico sobre o sistema endocanabinóide, que dificulta a prescrição da medicação, e a dificuldade de acesso à medicação.

 

“Eu gostaria que os meus pacientes tivessem fácil acesso a esses medicamentos e que eles não fossem a última opção, mas a primeira. Além de ter implantada essa matéria nas faculdades, para que todo médico soubesse o que é sistema endocanabinóide”.

 

Nesse sentido, o presidente da Santa Cannabis e diretor de comunicação da Federação das Associações de Cannabis Terapêutica (FACT), Pedro Sabaciauskis, lembrou o que tem sido dito reiteradamente pelos defensores da cannabis “não espere precisar para apoiar” e frisou que “crime é deixar seu filho sofrer sem a cannabis”.

 

Avanço na legislação

 

O deputado Goura destacou que está tramitando no Congresso o Projeto de Lei 399, que foi relatado pelo deputado federal paranaense Luciano Ducci (PSB). “É um avanço muito significativo para a pauta da cannabis aqui no Brasil porque propõe que as associações de pacientes, assim como a indústria farmacêutica, possam plantar a maconha para produzir os medicamentos”.

 

Atualmente todo insumo para a produção de medicamentos à base de cannabis no Brasil é importado, o que torna os produtos de alto custo e inacessíveis para a maioria dos pacientes.

 

No Paraná, o deputado Goura é autor do projeto de lei 962/2019, que assegura o acesso a medicamentos e produtos à base de canabidiol (CDB) e tetrahidrocanabinol (THC) para tratamento de doenças, síndromes de transtornos de saúde e outras comorbidades.

 

Outros participantes

 

Também participaram da mesa de encerramento o cineasta Raphael Erichsen, codiretor do filme “Ilegal: a vida não espera”, sobre a luta de famílias para terem acesso à maconha medicinal no Brasil e o deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ), autor do PL 174/2019, aprovado na Assembleia Legislativa do Rio e promulgado na forma da Lei 8.872/2020. Minc não conseguiu participar ao vivo, mas encaminhou uma mensagem por vídeo.

 

Encaminhamentos do Fórum

 

Como encaminhamento do Fórum Paranaense de Cannabis Medicinal, será organizando um documento com os destaques do evento para enviar a parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado Federal como forma de apoio ao PL 399/2015.

 

Em relação ao PL 962/2019, já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Paraná, o deputado Goura propôs a realizada de uma audiência pública na Comissão de Saúde, que será a próxima a apreciar o projeto.