O Brasil representa 33% do mercado da América do Sul na intenção de consumo de produtos à base de cannabis medicinal. De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias da Cannabis (ABICANN), se cultivada, a expectativa é que até 2030 a cannabis gere mais de 300 mil empregos no Brasil e movimente mais de U$ 350 bilhões na economia nacional.

 

Os dados foram divulgados pela engenheira genética, cofundadora, diretora de comunicação e coordenadora do GT de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação da ABICANN, Andrea Bezmertney, durante a terceira mesa do Fórum Paranaense da Cannabis Medicinal, que discutiu “O Mercado da Cannabis”, nesta quinta-feira (1º).

 

“O Brasil possui a melhor área cultivável do mundo. Se a cannabis fosse plantada aqui, os benefícios seriam muito grandes. Produção, geração de empregos e, principalmente, benefício à quantidade enorme de pacientes que esperam tratamento”, assegurou Andrea ao ressaltar que a realização do fórum é de extrema importância para a conscientização a respeito da cannabis.

 

 

Versatilidade da Cannabis

 

Ainda conforme dados da ABICANN, calcula-se que existam mais de 50 mil usos diferentes para o cânhamo (cannabis sem o princípio ativo que causa efeitos psicoativos) na indústria. Entre os principais usos destaca-se o têxtil, biocombustível, construção civil, celulose, além do alimentício e cosmético.

 

Principais problemas

 

Entre os principais entraves para o desenvolvimento do mercado da cannabis no Brasil foram apontados o alto custo dos medicamentos disponíveis no mercado, a pouca informação especializada e de qualidade, a falta de capacitação técnica, a ausência de uma legislação clara sobre diferentes usos e formas de fiscalização da cannabis e a falta de apoio para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da cannabis.

 

 

Cannabis no Paraná

 

Para falar sobre a situação do mercado da cannabis no Paraná, o fórum trouxe o diretor do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Carlos Gomes Pessoa.

 

Ele informou que o Tecpar lançou no ano passado um edital público para a prospecção de mercado e interessados em transferência de tecnologia, para desenvolvimento, fabricação e fornecimentos de produtos ou medicamentos de cannabis.

 

Segundo Pessoa, o edital teve abertura no dia 4 de fevereiro deste ano e o resultado divulgado no dia 29 de março. Conforme Carlos Pessoa, três empresas (FG Brasil, Verdmed e Florelar) tiveram pontuação acima do mínimo exigido.

Apoio às associações de pacientes

 

O passo seguinte, informou Pessoa, foi constituir um grupo de trabalho que está avaliando tecnicamente e juridicamente a construção de um plano de negócios no qual o Tecpar poderá atuar tanto na área de pesquisa e desenvolvimento, produção, ou ainda no controle de qualidade, inclusive oferecendo apoio às associações de pacientes.

 

“Com tecnologia e pesquisa sobre cannabis medicinal atuando juntas, podemos melhorar políticas e programas públicos com foco na qualidade de vida da população.”, afirmou Pessoa.

 

 

Potencial do mercado

 

Para o representante da Productora Uruguaya de Cannabis Medicinal (PucMed), que é a Florelar, David Peixoto, infelizmente o Brasil está muito atraso a tudo o que diz respeito à cannabis.

 

“Acreditamos que é possível fabricar remédio no Brasil sem depender do ritmo lento em que as coisas andam por aí, oferecendo ao Tecpar um posto avançado de pesquisa num país onde ele encontra a segurança jurídica, know-how, profissionais e equipamentos para que o próprio Tecpar possa desenvolver um remédio próprio”, afirmou.

 

Sobre os demais usos da cannabis, David Peixoto observou que os EUA arrecadaram no ano passado somente em impostos U$ 3 bilhões proveniente de produtos da cannabis, sendo que apenas 12% desse total é oriundo de medicamentos.

 

Mercado ético e responsável

 

O cientista social e representante da Marcha da Maconha, Mauro Leno, falou que o assunto cannabis deve ser tratado com seriedade e responsabilidade.

 

“É preciso construir um mercado ético, socialmente e ambientalmente responsável, com validação e promoção de boas práticas e que auxilie na necessária reparação histórica das comunidades afetadas pela guerra às drogas. É preciso lembrar que a cannabis nunca será só negócio”, afirmou.

 

Além da legalização

 

Especialista em processos produtivos de cannabis medicinal e fundador e presidente da Associação Cannativa (México), Pedro Nicoletti Motta, afirmou que a cannabis é uma farmácia numa só planta e que é preciso pensar para além sua da legalização.

 

“Para pressionar as mudanças, devemos estar educados e informados. Já estamos no momento de pensar o que fazer após a legalização. Sem um sistema que reeduque as pessoas, não vamos conseguir democratizar o acesso e a transformação que queremos”, frisou.

 

Diferencial humano

 

Para fechar a terceira mesa do Fórum Paranaense de Cannabis Medicinal, a antropóloga, educadora canábica e fundadora da InFlore, Luna Vargas, afirmou que eventos como este deveriam ser feitos em todos os estados do Brasil. “A gente precisa de mais iniciativas públicas falando de cannabis”, ressaltou.

 

Luna observou que a indústria da cannabis não é a indústria farmacêutica. “Há um diferencial humano muito grande. Se hoje podemos prover variedades de cannabis para uso medicinal, foi trabalho de militantes dentro da desobediência civil”, afirmou.

 

“A indústria da cannabis tem que ser do povo preto, dos indígenas, das mulheres, do povo LGBTQIA+. É isso aí. Viva os povos tradicionais, as minorias, a ciência, o SUS”, concluiu.

 

Avanço na Legislação no Paraná

 

O deputado Goura (PDT), idealizador do fórum, é autor do projeto de lei 962/2019, que assegura o acesso a medicamentos e produtos à base de canabidiol (CDB) e tetrahidrocanabinol (THC) para tratamento de doenças, síndromes de transtornos de saúde e outras comorbidades e está em tramitação na Assembleia Legislativa do Paraná.

 

“O nosso PL 962 finalmente foi pautado na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e estamos confiantes que em breve ele possa ser votado e aprovado na Assembleia”, afirmou Goura.

 

Outros participantes

 

Também participaram da mesa sobre o Mercado da Cannabis, a cofundadora e CEO da Kaya Mind, a primeira empresa de inteligência de mercado para a cannabis e segmentos afiliados, Maria Eugênia; a Fundadora da Blazing Beauty, empresa de cosméticos a base de maconha, Poliana Rodrigues e o químico e sócio fundador da Reaja Soluções Colorimétricas, James Kava.

 

Você pode assistir a íntegra da mesa “O Mercado da Cannabis” no link abaixo: