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Mandato Goura

Debate sobre espiritualidade, política e ativismo aponta caminhos para a transformação social

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Série Diálogos Budismo e Sociedade reuniu Lama Padma Samten, Goura, Pepe Vargas e Bernadete Brandão no CEBB Curitiba

Num contexto de aumento da crise climática, da polarização política e dos desafios à democracia, temas como espiritualidade, ativismo ambiental e participação política foram o centro do debate da série “Diálogos Budismo e Sociedade”, realizado nesta segunda-feira (3), no CEBB Curitiba.

Mediado pelo Lama Padma Samten, o encontro reuniu o deputado estadual e candidato à reeleição Goura (PDT), a candidata a deputada federal Bernadete Brandão (PDT) e Pepe Vargas (PT), candidato à reeleição a deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Na conversa, os quatro participantes discutiram como a ação política, a participação social e a ética da compaixão podem contribuir para enfrentar os desafios contemporâneos sem separar transformação pessoal e o compromisso com o interesse público.

“Como responder, com lucidez e compaixão, aos desafios do nosso tempo?” era a provocação inicial do debate. “O que aproxima o caminho espiritual das urgências sociais e ecológicas contemporâneas exercidas pela cidadania e a política?” Essas foram as principais questões.

 

Espiritualidade, política e ativismo

“Esse diálogo com Lama Padma Samten, Bernadete Brandão e Pepe Vargas foi uma oportunidade de aproximar diferentes trajetórias e refletir sobre os desafios do nosso tempo”, comentou o deputado Goura.

“A espiritualidade, a política e o ativismo socioambiental mostram caminhos que podem se encontrar na construção de uma sociedade mais justa, solidária e comprometida com a vida.”

 

Movimento antinuclear

Lama Padma Samten contou que o seu primeiro contato com a questão ambiental ocorreu em 1972, quando, ainda jovem estudante do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acompanhou os debates da 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente.

“Eu era um jovem entre 20 e 22 anos e foi ali, acompanhando a Conferência de Estocolmo, que comecei a compreender a dimensão da questão ambiental e como ela estava ligada às escolhas da sociedade”, recordou.

Depois, já como professor de Física da UFRGS e integrante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ele participou da luta antinuclear brasileira em oposição ao Programa Nuclear Brasileiro (PNB) nos anos de 1970.

Segundo ele, se formou uma rede de resistência social com entidades civis, pesquisadores e comunidades atingidas. “As questões ambientais parecem ambientais, mas são questões geopolíticas. As decisões não eram pautadas pela ciência, mas por interesses geopolíticos”, disse.

Para o Lama, essas questões permanecem atuais porque as crises ambientais continuam subordinadas a disputas econômicas e estratégicas entre Estados e grandes interesses internacionais.

 

Yoga e ativismo

O deputado Goura contou que sua trajetória foi do espiritual à atuação política institucional. “Minha trajetória na espiritualidade vem do Bhakti Yoga e do Vaishnavismo, tradições que dialogam plenamente com o Budismo”, disse ele, que também é professor de Yoga.

Segundo Goura, foi essa visão de mundo que contribuiu para sua mudança de perspectiva sobre a política institucional, inicialmente vista com desconfiança, mas posteriormente compreendida como instrumento necessário para ampliar o alcance das transformações coletivas.

“Com o ativismo percebi a política como um espaço necessário para ampliar a escala das mudanças sociais e ambientais. Nunca esteve no meu horizonte inicial entrar para a política institucional partidária. Eu me considerava anarquista e crítico das estruturas estatais, mas compreendi que a política precisava ser ocupada para transformar pautas coletivas em políticas públicas.”

Ao relacionar espiritualidade e ação política, Goura destacou a influência da filosofia védica e dos ensinamentos da Bhagavad-Gita. Segundo ele, o conceito de Yoga, associado à união e à inclusão, se contrapõe à lógica da separação e da exclusão que alimenta conflitos sociais e a crise ambiental.

“A crise climática é, por exemplo, fruto dessa visão de separação. A política deve ser utilizada para promover fraternidade, inclusão e não violência.”

 

Atuação parlamentar

Na atuação parlamentar, Goura relacionou esses princípios a iniciativas socioambientais no Paraná, como a lei que proibiu o fracking, técnica de extração de gás de xisto com riscos de contaminação dos lençóis freáticos, além de projetos de proteção animal, como a proibição do transporte e da exportação marítima de animais vivos, e ações como a Semana Lixo Zero e o projeto Criança e Natureza.

“Aprovar leis é uma forma concreta de conter a destruição. Ações individuais são importantes, mas precisamos atuar onde as grandes decisões econômicas e industriais são tomadas.”

O deputado também criticou a responsabilização exclusiva das pessoas pela crise climática, defendendo que mudanças individuais precisam estar associadas a transformações estruturais e à atuação política sobre os modelos de produção e desenvolvimento.

 

Ecodesign e transformação

Foi a luta antinuclear do Lama que inspirou o depoimento de Bernadete Brandão sobre a sua trajetória. A ecodesigner falou da sua vivência na Alemanha, em 1980, onde presenciou a força dos movimentos populares contra usinas atômicas e conheceu sistemas de gestão de resíduos.

“Participei de manifestações pacíficas com famílias inteiras pelo fechamento das usinas nucleares. Aquilo marcou a minha vida”, lembrou Bernadete. Ela afirmou que foi essa experiencia que redefiniu sua atuação profissional, dando origem a métodos de ecodesign e seus processos.

“Percebi que a ação comunitária, por si só, não muda o sistema quando esbarra nos limites da legislação. Foi essa compreensão que me motivou a entrar na política institucional para ajudar a construir as mudanças que a sociedade precisa.”

 

Participação popular

Antes de ocupar cargos públicos, Pepe Vargas contou que sua trajetória política começou ainda na adolescência, impulsionada pela indignação diante das injustiças sociais e pela influência do ambiente familiar.

Em Caxias do Sul, a recusa em aceitar a discriminação contra um colega negro e as referências do antigo trabalhismo de Getúlio Vargas e Leonel Brizola o levaram a participar de campanhas de oposição durante a ditadura e, mais tarde, a consolidar sua militância no movimento estudantil universitário.

“Desde muito cedo, eu tinha um sentido claro de não aceitar injustiças. Pela influência dos meus pais e das referências do trabalhismo, comecei a participar de campanhas políticas ainda na adolescência. Depois, no movimento estudantil, essa militância se fortaleceu e passou a orientar toda a minha vida pública.”

O ex-ministro do Governo Dilma Roussef, ex-prefeito de Caxias do Sul, ex-deputado federal e atual deputado estadual no Rio Grande do Sul, Pepe Vargas, relembrou as experiências pioneiras de participação popular desenvolvidas no estado, especialmente o Orçamento Participativo.

“A população não pode apenas ser ouvida. Ela precisa participar das decisões sobre as prioridades do orçamento”, disse. Pepe destacou que governar de forma participativa exige disposição permanente para o diálogo e para a escuta.

“A população ajuda o governo a tomar decisões melhores. Isso exige presença, centenas de reuniões e disposição para ouvir críticas.” Para ele, fortalecer os mecanismos de participação continua sendo um dos principais desafios das democracias contemporâneas.

 

Mudança de consciência

Ao final do encontro, as trajetórias compartilhadas apontaram para uma mesma reflexão sobre a transformação da sociedade a partir da forma como as pessoas se relacionam entre si e com o mundo.

A conversa mostrou que os desafios contemporâneos não podem ser enfrentados apenas por soluções técnicas ou respostas individuais. Exigem uma mudança de consciência capaz de aproximar espiritualidade, participação política e responsabilidade coletiva na construção de novas formas de convivência.

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