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Mandato Goura

“Quem não dale, dá licença”: projeto de Goura reconhece o Sarro como patrimônio cultural

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Nascido na cena eletrônica de Curitiba, dança ganhou as ruas e se tornou uma expressão da cultura urbana paranaense.

 

O recado da galera do Sarro é direto: “Quem não dale, dá licença. Quem não gosta, morde as costas.”

O Sarro começa no corpo. Mas não termina nele. É o ponto de partida para discutir a cidade, fazer amizade, se divertir, se expressar e ocupar a rua. É um mundo infinito de possibilidades. O Sarro dá perspectiva, dá possibilidade e é mais do que uma dança.

E é por isso e mais, que o deputado Goura (PDT) propõe o Projeto de Lei 727/2026 para reconhecer o Sarro como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Paraná.

Goura destaca a trajetória da Assembleia Legislativa do Paraná no reconhecimento de manifestações culturais contemporâneas.

“A Assembleia Legislativa do Paraná vem construindo uma trajetória importante, eu quero frisar, de reconhecimento de manifestações culturais contemporâneas, como as batalhas de rima, o hip hop e a música eletrônica.”

O PL 727/2026 reconhece uma manifestação que nasceu nas festas e encontros da cena de música eletrônica de Curitiba, ganhou o Largo da Ordem e o Deck, chegou a Pinhais e hoje ocupa diferentes espaços públicos com uma dança que já tem linguagem e identidade próprias.

“Agora, nós damos mais um passo para colocar o Paraná na vanguarda desse movimento nacional, reconhecendo expressões culturais que nascem da criatividade do nosso povo, especialmente da nossa juventude e das nossas periferias”, completou o deputado.

O Sarro é um estilo de dança popularizado em diversos municípios do Paraná, caracterizado por movimentos criativos e rápidos, pela dissociação entre tronco e quadril e, geralmente, pelo uso de música eletrônica.

 

Leia a íntegra do PL 727/2026 abaixo:

 

 

Elementos do Sarro

 

Ao longo de sua trajetória, o Sarro incorporou influências de estilos como o Melbourne Shuffle, o Rebolation e o Freestep e desenvolveu elementos próprios. Pés, quadris, tronco e braços entram em movimento em sintonia com a música, criando uma linguagem coreográfica que ganhou um sotaque paranaense.

O projeto de lei prevê ações de valorização do Sarro, apoio a iniciativas de dançarinos e dançarinas e incentivo à realização de eventos relacionados à dança.

A proposta também estabelece que as manifestações próprias do Sarro possam ser realizadas em espaços públicos sem regras discriminatórias ou diferentes das aplicadas a outras manifestações culturais de mesma natureza.

O texto determina ainda que não é legítima a punição, a repressão ou a dispersão pela mera prática do Sarro em espaço público e veda qualquer forma de discriminação ou preconceito, de natureza social, racial ou cultural, contra o Sarro ou seus praticantes.

 

Reconhecimento e legitimidade

 

Para Goura, a proposta dá legitimidade e proteção a uma manifestação cultural construída pela juventude.

“Nem sempre esses movimentos receberam ou recebem o devido reconhecimento. Pelo contrário, durante muito tempo, as manifestações culturais protagonizadas pela juventude foram observadas pela lente da desconfiança, do preconceito e, muitas vezes, da criminalização e sobrava repressão.”

Mesmo sem esse respaldo, o Sarro continua existindo, ocupando o espaço público, formando comunidades e produzindo cultura. “Agora, caberá ao Estado do Paraná fazer a sua parte: reconhecer, proteger e garantir que essa manifestação continue viva.”

Para Goura, valorizar essa trajetória também significa valorizar o papel da cultura produzida nas ruas. “Validar o Sarro como patrimônio é dizer que a cultura das ruas também constrói memória, identidade e território.”

 

Aprendizado na rua

 

Nicole Molinari começou a mandar um Sarro na vivência dos bailes. O aprendizado aconteceu na troca com outras pessoas, entre um encontro e outro.

“Eu ia ali no Centro, daí trombava alguém que estava dançando, pedia para essa pessoa me ensinar uma coisinha, daí depois ia no baile, pedia para outra pessoa me ensinar mais uma coisinha, e daí meu Sarro foi se formando a partir disso”, contou.

Depois, Nicole participou de uma oficina do projeto cultural Sarro Delas, onde conheceu Medusa. “Fiz uma oficina dela e Apartir daí fui desenvolvendo”. E a formação acadêmica também passou a fazer parte desse processo. “Eu faço faculdade de Dança. Então eu também estudo o Sarro na faculdade. Assim fui aprimorando a minha dança ali também.”

Para Nicole, a importância do projeto de lei está no reconhecimento de uma prática cultural que acontece na rua, em um espaço público que também pertence a quem dança.

“E a importância do projeto é reconhecer, legitimar esse movimento, porque ele acontece na rua, que é pública, então um espaço que é nosso.”

Ela também vê no Sarro uma expressão que ultrapassa o movimento corporal. “É uma expressão cultural para além do movimento em si de corpo, é um movimento que é também simbólico, que representa todos nesse lugar do lazer.”

O lazer, para ela, também está relacionado à possibilidade de ocupar a cidade sem depender de espaços privados.

“Então você não precisa mais pagar R$ 60 ou mais num ingresso para você ir numa festa. Você se reúne ali com os seus amigos e tira um peão, assim, de graça, e você está ocupando aquela rua.”

A experiência, para ela, ganha um significado especial em Curitiba.

“E Curitiba é uma cidade muito difícil de se ocupar da rua. É uma cidade ainda com muita herança colonial, então a gente recebe muita repressão em cima, só de você estar andando na rua, se expressando de uma forma que não é bem-vista.”

Por isso, Nicole acredita que o reconhecimento institucional pode ajudar a transformar a maneira como o Sarro é percebido.

“Então eu acredito que o projeto do Goura vai ajudar nisso, na forma que o Sarro é visto, porque infelizmente precisa de uma instituição para dar uma legitimidade em cima de algo que já acontece”, afirmou Nicole.

 

Confira as fotos clicando abaixo:

 

Sarro - Patrimonio Cultural do Paraná

 

A força da troca

 

Medusa, ou Milena, também aprendeu a dançar a partir da troca com outras pessoas. Primeiro, vieram os vídeos na internet. Depois, os bailes.

“Eu comecei a mandar um Sarro com um parceiro e comecei a assistir bastante mídia na internet, e daí ele, já conhecia algumas pessoas que mandavam um Sarro, então eles mandavam vídeo pra gente mostrando os passinho”, lembrou. “A maioria foi vendo vídeo na internet e tal.”

Mas foi nos bailes que a dança começou a se desenvolver de outra maneira.

“Mas foi nos bailes que a dança começou a se desenvolver de outra maneira. A partir do momento que eu comecei a ir pra baile que o bagulho começou a desenrolar mais. Começou tendo essa troca, de dançar com pessoas que você não conhece ou que conheceu ali no momento. Você vê aquela pessoa fazendo uma coisa e faz igual, daí você aprende com ela e ela aprende com você”, detalhou Medusa.

Sobre o reconhecimento cultural, Medusa relaciona o Sarro à trajetória de outras manifestações produzidas nas periferias.

“Eu acho que é muito importante, porque, infelizmente, a nossa cultura, assim como o hip-hop, o funk, o samba, ela vem das periferias, cresceu nas periferias e isso acaba que a sociedade julga e marginaliza essa cultura por conta disso, por causa do nosso jeito, de onde a gente vem, da nossa classe social e entre outros motivos.”

Para ela, a marginalização interfere diretamente na possibilidade de dançar e ocupar os espaços. “E essa marginalização impede que a gente dance em paz, que a gente tire o nosso rolê.”

Medusa também relata a existência de repressão policial e de julgamento social contra os praticantes.

“Então, tipo, existe muita repressão, tanto policial quanto da própria sociedade, julgando e falando que é dança de vagabundo, de nóia, de drogado, sendo que nós só tá dançando e não tá fazendo mal a ninguém.”

Na opinião dela, o projeto pode ajudar a garantir essa ocupação. “Vai dar uma força pra gente conseguir estar nesses lugares sem… sem ser apedrejado, né?”

 

A periferia do Sul

 

Para Bebel, o reconhecimento proposto pelo projeto de lei do deputado Goura é importante para dar visibilidade à produção cultural periférica, especialmente no Sul.

“O reconhecimento cultural periférico no Brasil, mas principalmente no Sul. A periferia do Sul existe, ela produz cultura e produz cultura muito boa e de muita qualidade e não é reconhecida.”

Para ela, o Estado tem um papel fundamental nesse reconhecimento. “E o Estado tem extrema importância de fazer isso. Se não for o Estado reconhecer, quem vai reconhecer?”

E a ocupação da rua aparece como parte essencial dessa produção cultural. “Se não pode ocupar a rua, se você não ocupa a rua, você não tem nada.”

 

Da tela para o baile

 

André, conhecido como Refém, começou a dançar depois de ver um vídeo no TikTok. Gostou da dança, começou a treinar, passou a frequentar os rolês e foi aprendendo.

“Depois de ver um vídeo e gostar da dança, eu comecei a treinar, daí fui colar nos rolês pra aprender a mandar, e tô aí aprendendo constantemente até hoje, aprendendo as coisas novas que tem pra aprender.”

Para ele, o Sarro também é uma forma de lazer. “É pra me divertir, né. Pra tirar um lazer, pra, enfim, espairecer a cabeça de vez em quando.” Sobre o projeto de lei, André considera importante que a manifestação seja levada para o debate político.

“Acho interessante, porque o Sarro é uma manifestação cultural urbana legítima do Paraná. Quando uma pessoa que tá dentro da política vê isso e traz pro debate, pra dar visibilidade, é super essencial e necessário.”

Ele relaciona essa discussão à situação das culturas de rua, da cultura urbana e das manifestações da juventude. “Porque as culturas de rua, a cultura urbana, a cultura de juventude estão constantemente sendo ameaçadas, atacadas. Então, esse PL vai ser massa pro Sarro”, disse ele.

Para André, a valorização ajuda essas culturas a permanecerem vivas. “Quando rola essa parada de valorização, faz com que essas culturas se mantenham vivas e que as pessoas possam continuar fazendo a parada.”

E considera importante que uma cultura periférica e urbana receba atenção institucional. “Então é da hora ver que a galera tá preocupada em valorizar uma cultura periférica e urbana.”

 

 

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